Penedo Borges - Finca Don Otaviano

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Finca Don Otaviano

Mídia

Nessa seção você encontra a indicação de livros e artigos sobre o mundo dos vinhos. Ela inclui os livros sobre vinhos, amenidades e sobre harmonização com comidas, escritos por Euclides Penedo Borges, seus artigos especializados, além de informes e artigos de outros autores, de interesse dos enófilos em geral.

Livros

ABC Ilustrado da Vinha e do Vinho

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Dividido em três partes principais - a Uva, a Transformação e o Vinho - esse livro se apresenta com um claro diferencial na forma como foi concebido e redigido, com exemplos práticos e curiosidades para facilitar a compreensão. Assuntos às vezes complexos, como a fermentação e a relação do vinho com a madeira, são descritos em linguagem simples, de fácil entendimento. Abrangendo os temas principais para o conhecimento dessa singular bebida, trata-se de livro obrigatório para quem busca informação simples e direta, porém de intenso conteúdo, sobre os vinhos.

110 Curiosidades sobre o mundo dos vinhos

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Com 110 artigos de amenidades sobre o vinho esta obra inclui curiosidades que se remetem a origens mitológicas ou lendárias, a raízes históricas e à atualidade, colocando-nos a par de inúmeras singularidades do instigante mundo da enologia. O leitor vai encontrar neste livro resposta para indagações a respeito da origem do aroma de baunilha, banana e da framboesa em certos vinhos, a elaboração dos vinhos fortificados, do vermute, do jerez, lendas e mitos, tais como a parte que cabe aos anjos, o corvo da Sicília, o leite da mulher amada...um pequeno livro de cento e trinta páginas para você se deliciar noite adentro, sem uma ordem definida, com aromas e sabores.

Harmonização - O livro definitivo do casamento do Vinho com a Comida

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Grande número de iguarias preenche cardápios e livros de receitas. Também extensa é a lista dos vinhos das cartas e catálogos. Além disso, vez por outra são lançados novos pratos ou reformulados os tradicionais ao mesmo tempo em que são lançados novos vinhos e outros desaparecem. Tanto em relação a comidas e vinhos conhecidos quanto a inovações, pode-se tirar o melhor proveito da combinação entre eles conhecendo e aplicando os conceitos e diretrizes apontados nesse livro. De caráter tanto teórico quanto prático, a obra se desenrola em torno da teoria da Harmonização, da sua prática, de casos particulares, como queijos e vinhos e comidas asiáticas, e da sequência dos pratos e vinhos em uma refeição harmonizada.

Artigos

Curiosidades Enológicas

Euclides Penedo Borges

Vinhos maduros fazem a diferença

Curvando–nos à modernidade e à aceleração do ritmo de vida, bebemos às vezes vinhos ainda jovens, tornados produtos de consumo imediato pelas técnicas atuais de estabilização e filtração. Esse modismo faz com que notas maduras – frutas secas, petróleo, tomilho, couro, amêndoa – tornem–se menos queridas, ou até indesejáveis, o que é lamentável pois vinhos maduros dão–se melhor do que vinhos jovens com inúmeros pratos.

Na alteração do vinho com o tempo, devida à reação do oxigênio com os componentes da bebida e desses componentes entre si, os aromas perdem o frescor frutado e misturam–se aos aromas da fermentação, o vinho perde intensidade de sabor e ganha em maciez.

Nos tintos, a adstringência e o amargor dos taninos dissipam–se, tornam–se fatores positivos e o vinho passa de equilibrado e macio para harmônico e redondo.

A razão é que, em vinhos maduros, os açúcares, os ácidos e o álcool estão mais bem integrados, proporcionando uma impressão deliciosa e um fundo de boca agradável, tornando–os adequados para harmonizações perfeitas.

É claro que a combinação às vezes pode ser desastrosa. Com Aspargos, por exemplo, qualquer nuance mineral mínima – pedra de isqueiro, petróleo ou querozene – no vinho branco, tão comuns nos Rieslings, acentua–se desagradavelmente, propiciando à boca um gosto metálico. Agora, se esses aspargos acompanham um carré de vitela assada ao molho de cogumelos, um branco maduro da Chardonnay ou da Riesling há de sair vitorioso. A combinação chega através das notas vegetais, de “sous bois”, de ervas e de cogumelos que se encontram tanto no vinho quanto na comida.

Com fundamento nas observações acima, Bordeaux, Barolos, Barbarescos, Riojas ... bem maduros destacam–se como companhia adequada para carnes com molhos de cogumelos ou trufas. No caso de um Malbec argentino, um Carmenere chileno, um Tannat uruguaio ou um Merlot gaúcho, para ficarmos mais pertos de nós, que tenham pelo menos cinco anos após a safra.

Os Cinco Terroirs de Mendoza

Euclides Penedo Borges

O consumo de vinhos argentinos consolidou-se de tal forma no Brasil que nomes como Catena, Zuccardi, Caro e Terrazas, por exemplo, são hoje bem conhecidos entre nós. Novos nomes também têm surgido, como é o caso dos vinhos Penedo Borges da Finca Don Otaviano. O que nem todos sabem é que eles estão estabelecidos em diferentes "terroirs" de Mendoza que se distinguem uns dos outros pela altitude, pela distancia aos Andes, origem da água, temperatura média, incidência de granizo, tipo de terreno e natureza do solo.

Também a amplitude térmica - diferença de temperatura entre meio-dia e meia-noite no verão - tão importante para a vinicultura andina, varia de um lugar para outro.
é assim que os vinhos varietais locais - Malbec, Tempranillo, Chardonnay,... - elaborados por vinícolas distantes, apresentam atributos diferenciados para o consumidor atento.

LOCALIZAÇÃO - A distância entre os vinhedos extremos da província mendocina é significativa. No sentido norte-sul, da capital a San Rafael, são duzentos quilômetros. No sentido oeste-leste são cento e cinqüenta. Um mundo, em termos europeus!
Nesses trinta mil quilômetros quadrados - entre os paralelos 33 e 35 Sul - localizam-se cinco terroirs. Três nas redondezas da cidade de Mendoza (Luján, Maipú e Leste), o quarto - Valle de Uco - mais ao sul, afastado da cidade, e o quinto - San Rafael - bem mais ao sul, no centro geométrico da província. Vamos dar uma volta por eles.

LUJÁN DE CUYO localiza-se no sopé dos Andes, em altitudes entre 860 a 1100 metros. A temperatura anual média é de 15° C, o que é bom, e a amplitude térmica, 14° C, o que é ótimo. As chuvas são escassas e a origem da água é o Rio Mendoza. Terrenos planos, arenosos, solos de cascalhos desintegrados da cordilheira, boa drenagem, com riqueza mineral e pobreza orgânica, tudo isso faz de suas áreas produtivas - Agrelo, Perdriel, Vistalba ...- habitats ideais para a Malbec, com boa acomodação também para Cabernet, Syrah, Sauvignon Blanc e Chardonnay.

Encontram-se em Luján, entre outras, Catena Zapata, Lagarde, Luigi Bosca, Norton, Ruca Malén, Séptima e Terrazas. Próximo delas a Finca Don Otaviano dos vinhos Penedo Borges.
MAIPú situa-se ao sul de Mendoza e a leste de Luján, um pouco mais afastada dos Andes e em altitudes mais baixas, entre 650 e 800 metros. O clima é parecido com o da área vizinha com temperatura média um pouco superior e amplitude térmica levemente mais baixa. A origem da água e o regime de chuvas são os mesmos de Luján.

Apresenta em suas áreas - Coquimbito, Cruz de Piedra, Barrancas - solos aluviais argilosos com seixos rolados, rico em minerais, com ocorrências de terras vermelhas, propiciando alguns dos melhores Cabernets argentinos. Em Maipú encontram-se as vinícolas Benegas, Finca Flichman, La Rural, Lopez, Navarro Correas, Peñaflor, Trapiche, Trivento e Weinert, entre muitas outras.

O terroir LESTE, no lado leste da região metropolitana, compreende as localidades de San Martin, Junin e Rivadávia, em altitudes de 600 a 800 metros. A amplitude térmica, o período livre de geadas e o regime de chuvas é o mesmo de Maipú. Mostra temperaturas um pouco mais altas (média de 17° C) e aqui a origem da água é o Rio Tunuyán, não mais o Mendoza. As áreas mais altas têm solo aluvial arenoso com limo. Na parte baixa os terrenos são profundos e pedregosos. A Tempranillo adaptou-se muito bem na parte alta ao norte, na área de Fray Luis Beltrán, no limite com Maipú.

As vinícolas Bodega Esmeralda, Família Zuccardi (em Fray Luis Beltrán), Llaver (em Rivadávia), Segundo Correas e Mapema estão localizadas nessa região Leste.

O VALLE DE UCO, ou Tupungato, situa-se oitenta quilômetros ao sul de Mendoza, costeando a Cordilheira, em altitudes entre 900 a 1500 metros. As temperaturas anuais médias são mais baixas ( 14° C) e o clima mais seco (pluviosidade de 200 mm) com forte amplitude térmica. A água vem dos rios Tunuyán e Tupungato. Solos permeáveis, pedregosos, com seixos rolados, areia grossa e limo, de baixa fertilidade. Em tais condições, a Pinot Noir e a branca Pinot Gris incluem-se entre as castas locais. A viticultura no Valle de Uco, relativamente recente, vem se desenvolvendo com rapidez.

Já se encontram ai as vinícolas Achaval Ferrer, Clos de los Siete (Michel Rolland é um dos sete), La Célia (em La Consulta), Ortega Fournier, Lurton, Luca, Salentein e Tykal.

SAN RAFAEL, finalmente, está bem mais ao sul no centro geográfico da província de Mendoza. As altitudes são mais baixas, de 450 a 800 m. e toda a área é sujeita a intempéries, exigindo proteção anti-granizo, com um período livre de geadas curto (190 dias por ano). Temperatura média e amplitude térmica de 14° C. A água é originária das barragens dos rios Diamente e Atuel. Terrenos aluviais sobre pedra calcária, mais arenosos no lado oeste (Rama Caída) e limosos no lado leste (General Alvear).

Entre as principais "bodegas" de San Rafael incluem-se Alfredo Roca, Félix Lavaque, Jean Rivier, Valentin Bianchi (das mais antigas, instalada em 1927) e Viñas del Golf.

COMPARAçõES - Ao adquirir seu próximo vinho de Mendoza, verifique o terroir do qual ele provém. Será certamente um dos cinco citados. As informações acima hão de complementar os dados do contra-rótulo e propiciar comparações interessantes. Por exemplo: comparar um Penedo Borges Malbec de Luján de Cuyo com outro de San Rafael de mesma safra. Ou um Tempranillo do Leste (Zuccardi Q) com outro do Valle de Uco (Ortega Fournier B Crux, por exemplo). A diferença de terroir far-se-á presente com nitidez.

Discórdias em Sauternes

Euclides Penedo Borges

Quem é membro de uma família cujo vinho alimentou as adegas de George Washington e dos Czares de Todas as Rússias tem que ser discreto. Assim, o Château d'Yquem, onde se elabora um Sauternes tido como "a extravagância do perfeito", esconde histórias.

Os Lur-Saluces eram proprietários desde o século 16 quando um deles se casou com a herdeira Françoise-Josephine de Sauvage. Sucederam-se gerações até que Bertrand de Lur-Saluces assumiu o comando no século 20 e manteve a projeção do nome em meio à guerra. A antipatia de Bertrand por Philippe de Rothschild é conhecida. Nunca lhe apertava mãos, recusava-se ser fotografado ao lado dele. Para provocá-lo, Rothschild tinha servido um Yquem a seus convidados em um dedal de coser. Vingando-se, Bertrand promoveu um jantar onde, dizendo que certo vinho ia bem com sopa, verteu um Mouton-Rothschild na sopeira..

Bertand, que detestava as mulheres, morreu em 1968 sem deixar herdeiros. Com Alexandre, seu sobrinho, rigoroso na elaboração e renunciando a safras insuficientes, vieram anos dourados. Ao receber um primeiro-ministro canadense, serviu um Yquem 1945 em memória do desembarque dos aliados na costa norte da França. Quando lhe chamaram a atenção de que o evento se dera em 1944, argumentou: "Sei disso, mas 44 não foi uma boa safra".

Em novembro de 1996 alguns membros da familia venderam quotas para Bernard Arnault (leia-se Louis Vuiton), que passou a deter 64% das ações. Para amainar a revolta e a amargura dos demais Lur-Saluces, a LVMH emitiu nota informando que "...Yquem permanece como um mito, fora de classe. Se gastamos todo esse dinheiro, foi para usufruirmos da excelência..."

Ícones Tintos do Cone Sul

Euclides Penedo Borges

Ao terminar, em breve, a primeira década do Século XXI, a América do Sul vê consolidada sua maturidade vitivinícola a nível internacional. Provas disso são a disponibilidade de vinhos de qualidade superlativa, elaborados cuidadosamente em condições especiais no Chile, na Argentina, no Uruguai e no Brasil, e o reconhecimento dessa melhoria qualitativa por parte de revistas especializadas e de avaliadores reconhecidos no mundo dos vinhos.

Chama atenção o grande número de referências favoráveis e notas elevadas em revistas como a Decanter inglesa, a Wine Enthusiast e a Wine Spectator dos EUA, por onde transitam hoje os vinhos sulamericanos bem avaliados, coisa impensável há vinte anos atrás. E nos comentários elogiosos e algo surpreendentes de avaliadores do nível de Robert Parker e Jancis Robinsosn.

Passemos da teoria à prática com alguns exemplos de avaliações internacionais de vinhos tintos sulamericanos disponíveis no Brasil.

ENTRE OS GRANDES CHILENOS - Iniciando pelo Chile, pioneiro no Cone Sul em grandes vinhos internacionais, podemos mencionar o Clos Apalta, da Casa Lapostolle cuja versão 2005 foi referendada por Roberto Parker com uma nota 91.

O Errazuriz Don Maximiano Founders Reserve obteve 91 pontos da Wine Spectator na safra 2005. O Carmen Gold Reserve Red 2002, da Viña Carmen, mereceu 92 pontos na mesma Wine Spectator.

O "Altair 2004" elaborado na Viña Altair, do Valle de Cachapoal, pela enóloga Ana Maria Cumsille sob consultoria do francês Pascal Chatonnet, foi distinguido com uma nota 94 por Robert Parker.

Alguns degraus acima, o "Montes Alpha M" chegou aos 95 pontos da Wine Spectator na sua versão 2005. O Don Melchor 2003 foi dado pela Wine Spectator como o melhor Cabernet Sauvignon do mundo (sic) em 2006.

E de Puente Alto, no Maipo, nos vem o Almaviva, parceria entre a francesa Rothscild e a chilena Concha y Toro que já dura doze anos. Os de 2001 a 2004 tiveram todos notas de Parker acima de 91. O Almaviva 2003 mereceu 95 pontos tanto de Parker quanto da Wine Spectator.

Isso tudo sem esquecer da repercussão mundial da vitória do "Viñedo Chadwick 2000" na chamada "Degustação de Berlim", em janeiro de 2004, conforme descrevi no meu artigo Vinhedo em Campo de Pólo, no número 42 deste jornal.

ALGUNS íCONES ARGENTINOS - A revista Wine Advocate, de Robert Parker, não teve dúvidas em galardoar o tinto argentino "Achaval-Ferrer Finca Altamira 2004" com um 98, a maior nota que um vinho mendocino tinha recebido até então. A vinícola butique Achaval-Ferrer, de Tupungato, é mesmo uma vencedora: seu Finca Mirador 2005 mereceu 93 pontos da Wine Spectator.

Parker avaliou os três Catena Zapata Malbec 2004 - Nicasia, Adriana e Argentino - com, respectivamente, 96 pts., 97 pts., 98 pts.

Ainda a Wine Spectator incluiu o "Colomé Malbec Estate 2006" entre os 100 vinhos top de 2008. A Bodega Colomé localiza-se no deserto de Calchaqui, na Província de Salta e pertence ao suíço Donald Hess.

A Revista Decanter, de Londres, coroou com suas cinco estrelas um Malbec da Patagônia. Trata-se do "Noemía 2006" da Bodega Noemía, projeto iniciado pela Condessa Noemi Marone Cinzano em associação com o enólogo Hans Vinding-Diers.

Merecem ainda registro, entre outros o Doña Paula Selección de Bodega Malbec 2005 (Parker, 94) e o Cobos único Corte 2005 (Parker, 98).

A CHEGADA DO URUGUAI - A influente Jancis Robinson avaliou com 18,5 pontos em vinte o "Axis Mundi Tannat 02" da vinícola Pisano, de Canelones. Um Tannat clássico uruguaio, de vinhas velhas com baixo rendimento e alta concentração. Enquanto isso, o "Reserva Personal de Família", da mesma vinícola uruguaia, era considerado "o melhor tinto do Novo Mundo" pela revista Decanter.

De Melilla, perto de Montevidéu, nos vem esse "Monte Vide Eu 2005/2006", da bodega boutique Bouza, avaliado com 18 pontos em vinte por Jancis Robinson.

E há outros uruguaios dos quais desconheço a pontuação mas que mereceram destaque no mercado internacional: o El Preciado Gran Reserva da Bodega Castillo Viejo, de San José; o Familia Deicas Tannat 1er. Cru Garage, do Establecimiento Juanicó; etc.

CONCLUSÃO - A nossa previsão de que o tratamento dado internacionalmente para os vinhos do Cone Sul, tratados com certo distanciamento até os anos noventa, mudaria para melhor, se concretizou e hoje é uma realidade.
é claro que o Brasil também concorre para isso, por exemplo, com seus Salton Desejo, Miolo Terroir, etc. Mas os deixo de fora já que a vinicultura brasileira não está incluída nesta minha coluna, sendo objeto da atenção de outro colunista desta publicação, a quem passo a bola.

Pioneiros da Vinicultura Argentina

Euclides Penedo Borges

Com a forte presença de vinhos argentinos no mercado brasileiro, nomes como Catena, Pulenta, Trapiche, Norton e outros são hoje familiares entre nós. Ainda que isso seja fato recente, muitas dessas vinícolas são centenárias. Várias delas são de propriedade dos argentinos, como a Catena Zapata (de Nicolas Catena), a Luigi Bosca (da família Arizu), a Lagarde (grupo Pescarmona), a Nieto Senetiner (grupo Perez Companc)...

MULTINACIONAIS - Outras, porém, passaram para as mãos de multinacionais: é o caso da Trapiche (grupo D. L. Jenrette, dos EUA), da Norton (Swarovsky, da áustria), da Finca Flichman (Sogrape, portuguesa), da Etchart (Pernod Ricard, francesa), etc... Entre essas, algumas tiveram proprietários intermediários antes de chegar aos atuais. A Trapiche, inicialmente dos Benegas, passou para os Pulenta, hoje é americana. O antigo vinhedo do desbravador Flavio Nieto foi adquirido em meados do século 19 por Arnaldo Etchart e deu origem às Bodegas Etchart, pertencente à Pernod Ricard. A Finca Flichman passou dos herdeiros de Samuel Flichman para o grupo argentino Wertheim antes de ser absorvida pela Sogrape, de Portugal....

VISIONáRIOS - Por trás desses nomes esconde-se uma história de ousadia iniciada por empreendedores do Século 19 que se dedicaram à uva e ao vinho nas paragens desérticas do sopé dos Andes. Entre eles, o argentino Tibúrcio Benegas (Trapiche), o espanhol Leôncio Arizu (Luigi Bosca), o inglês Edmund Norton, o basco Miguel Escorihuela, ... para nos limitarmos a uns poucos. Ilustremos com três deles.

BENEGAS - oriundo de Rosário, Santa Fé, Tibúrcio Benegas, radicou-se em Mendoza aos vinte anos de idade determinado a tornar-se milionário antes dos trinta. Adquiriu um terreno próximo da capital, no local conhecido como El Trapiche, dando origem a sua vinícola em 1883. Iria casar-se mais tarde com a filha do governador da província. Com seu poder persuasivo criaria o Banco de Mendoza ao tempo em que expandia o cultivo de variedades francesas na sua propriedade, deixando um patrimônio importante para seus sucessores. Em 1920 eles construiriam uma nova vinícola em Maipú, mais ao sul, mantendo o nome Bodegas Trapiche dado por Don Tibúrcio. Venderam-na mais tarde para a familia Pulenta. Hoje pertence à americana Donaldson, Lufkin and Jenrette; o espírito empreendedor de Tibúrcio Benegas, porém, continua por lá.

PEREYRA - Veterano das campanhas contra os índios na região de Mendoza, o Capitão de Artilharia ángel Pereyra era também um aficionado da vitivinicultura. Em 1897 desenvolveu uma modesta vinícola na margem esquerda do Rio Mendoza, que denominou Bodega El Artillero. A localidade fora habitada pelos índios Huarpes, que haviam desenvolvido um sistema de irrigação no local. Os descendentes de Angel deram continuidade à sua atividade por setenta anos e mantiveram a empresa em constante evolução, até que, em 1976, ela foi adquirida por Ernesto Pescarmona, potentado da indústria metal-mecânica na Argentina. A vinícola foi então re-batizada de Lagarde, homenagem de Ernesto a um amigo seu que morrera em acidente de automóvel. A pujança da Bodega Lagarde atual, do grupo Pescarmona, tem como pano de fundo o pioneirismo e a coragem do Capitão Pereyra.

ARIZU - Nascido em Navarra, Espanha, Leôncio Arizu chegou a Mendoza, com seus pais, aos sete anos de idade. Passando a adolescência em meio aos vinhedos logo acalentou o sonho de elaborar seus próprios vinhos. Trabalhando de sol a sol conseguiu seu intento aos vinte e cinco anos quando se tornou gerente da cantina familiar. De seu casamento com a espanhola Juana Larrea nasceram cinco filhos. O penúltimo, Saturnino Arizu Larrea, deu um impulso inovador à vinícola paterna, que modernizou e ampliou. Fundou então a empresa da família Arizu com o nome de Bodega Luigi Bosca. Além da sede ela inclui agora cinco propriedades, entre elas a Finca Don Leôncio. A atividade da nova geração dos Arizu se dá sob a inspiração do seu tetravô Leôncio Arizu.

PRóCERES - As linhas acima não esgotam nem de longe o tema. Poderíamos citar outros próceres da vinicultura argentina do século dezenove como Juan de Dios Correas (da Navarro Correas), Santiago Graffigna, Arnaldo Etchart, os irmãos Santiago e Narciso Goyenechea, etc. Fica porém a lembrança de que muito da pujança atual da vitivinicultura argentina se deve ao esforço desses desbravadores do deserto andino.